quinta-feira, 1 de abril de 2010

"Cuidado como os segredos, o amor pode uma hora encontra-los".

Cristiano L. Batista, autor do blog


Talvez seja você como eu, ouvindo e nunca compreendendo a expressão, “o amor é cego”. Não por falta de explicações, mas por um sentido nobre.

A quem diga: “o amor cego é uma relação onde as diferenças pouco importam. Belezas e riquezas que não são da alma, tão pouco importa perto do que temos a oferecer”, e há sempre quem diga, “não sei o que ele viu nela (e)”.

Um dia entendi que se fecham os olhos para o mundo daqui e se abra os do coração, que só o outro vê.

Gostaria de compartilhar alguns minutos de um tempo que ficou marcado na minha memória e tive a honra de apreciar, se não, o único a fazê-lo.

Era dia quente e prazeroso de verão. Tive o desejo de sair e ver como estava a vida fora do apartamento que residia há algum tempo.

Sentei-me a sombra de uma arvore numa dessas praças perto de casa. A vida fervilhava e tudo era alegria. Tantos sorrisos, tantos gritos e gargalhadas infantis, o som da pipoca dançando dentro das panelas fumegantes dos vendedores e um cheiro bom de doce de leite vinha dos churros suculentos, titubeei se compraria um agora ou no fim da tarde, longo resolvi comprar um agora e outro depois também. Senti-me um glutão, tive de rir de mim mesmo.

Porém tive uma sensação e logo descobri por que, olhos furtivos caiam sobre mim do outro lado da praça movimentada. Senti-me incomodando com aquela nítida invasão de privacidade e revirei no banco onde terminava de engolir seco o pedaço quente de churro, sem graça por estar sendo observado e nem bem sei por quanto tempo.

Lancei um olhar de soslaio e compreendi que “sim”, olhos caiam sobre mim, e “não”, eles não me olhavam, pouco acreditei naquele momento que já haviam visto algo naquele dia ou há tempos, “à quanto tempo era cego?”, fui tomado por uma leve curiosidade.

Uma vez tentei imaginar a vida sem as lanternas dos olhos, até mesmo vendei-me e em meia hora já havia dado com os dedos do pé numa quina. Deduzi então duas verdades, primeira, se caso faltasse-me a visão eu estaria perdido e totalmente inutilizado sendo que mesmo vendo muito bem sempre conseguia atrapalhar-me ou ser alvo fácil no transito para motoristas tão descuidados quanto eu. Segunda, o dedão nunca seria o mesmo depois daquela trombada.

E conclui que era realmente cego aquele homem sentado a minha frente na parte oposta da praça por um único e pequeno detalhe, melhor seria disser “pequena”. Uma menina segurou-lhe a mão e a acariciou a áspera e grande mão com seus pequenos e frágeis dedos.

- olá querida. – pode ouvir bem quando complementá-la, percebera que aquele carinho somente seria de quem o conhecia bem. Uma filha talvez.

- oi papai. – agora toda duvida se extinguia sobre a identidade daquela pequena. - sabe qual é a cor do pirulito que eu tenho?.

Evitamos, sempre que possível, tocar em assuntos delicados com pessoas cegas, surdas, mudas ou portadas de qualquer deficiente, sendo que são nítidas suas debilitações, seria crueldade interrogá-los sobre causas e circunstâncias que ocasionaram sua condição atual. Mas aquele olhar amendoado fizera uma pergunta que no mínimo me pegara de surpresa e agora aguardávamos, ela e eu, atentos a resposta mesmo já a imaginando.

- não querida. – respondeu com tamanha calma que me fizera ficar mais ainda curioso e inquieto aqui do outro lado da praça, fustigado feito um cão de rua – mas aposto que ira me disser, não é mesmo?

Engoli seco esperando a replica.

- sim – disse ela faceira – vermelho, azul, verde e roxo. E agora, pode ver papai?

Talvez o pipoqueiro pensasse que eu era um desses loucos maníacos que aparecem em praças para uma chacina em massa, minha inquietude agora era berrante e não sabia mais o que pensar. Tentava assim mesmo imaginar a quanto tempo não poderia ver o rosto da filha que na casa dos seis anos deveria ter nascido antes do que lhe tirara a visão, tanto tinha de lembrar como era o próprio rosto ou como ficara depois dos anos. Sua vida é feita de sensações e imaginação, então me ocorreu algo, mas sua resposta fora enfim dada confirmando minha conclusão.

-sim, eu posso – afagou o cabelo negro indígena da pequena beijando - os – quase tão lindas quanto você.

Ela sorriu orgulhosa e o ajudou a se levantar. Cruzaram a praça e por um momento pensei que vinham ter comigo, mas passaram sem ao menos saber que fui um interessado espectador de suas vidas.

Agora eu sei o que é amar cegamente. É ver onde não se vê o colorido do amor.

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