quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Colunista


"O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco".

Júlio Dantas, escritor.



Veja só o meu dilema.
Escrevo e acho bom. Saio para um passeio e meia hora depois volto e releio o escrito. “nossa esta horrível”. Apago e recomeço.
Tento escrever novamente e acabo não achando tão bom, logo desisto e deixo aquele monte de palavras sem nexo sobre a escrivaninha e saio para a cozinha tomar um café preto - meu maior vicio, como diria minha mãe - a fim de encontrar a inspiração que fugira de mim. “onde anda você, danada?”
Da varanda, com uma fumegante caneca de “pretinho”, afastei as idéias absurdas e fiquei olhando o mata no fim da rua e lembrei-me de como brincávamos pelas trilhas que cortam todo o seu interior feito artérias. Bons tempos.
Por um instante pensei em escrever sobre as desventuras de quando moleque, mas logo me desfiz dessa idéia, seria um pouco constrangedor delatar as historias infames, e de como fiquei por horas preso em um cipó me borrando de medo e gritando por minha mãe.foi um tombo e tanto quando despenquei com cipó. Hoje tenho um tremendo medo de lugares alto.

***
Quando o café acabou e o vento de outono soprou pelas copas de arvores, a pele se irisou e sem inspiração alguma, voltei para interior da casa e sentei-me para uma nova sessão de tortura na frente dos papeis dispostos de forma desorganizada, um reflexo do meu humor latente. Puxei a folha do ultimo texto e li com certo desdém.
“Ei, esse é o mesmo texto?” franzi a testa e continuei a ler.
Sim, obviamente aquele era o mesmo texto de alguns minutos atrás, reconheceria a caligrafia horrível em qualquer lugar. Porém, desta vez o texto estava melhor, foi como deixar um pão mirrado crescer e tomar mais volume e aparência saudável antes de assar. O texto havia marinado um pouco no esquecimento e eu agora o lia de um ângulo diferente, do ponto de vista de um leitor desconhecido.
Definitivamente, estava ótimo.

***
Imaginei depois de algumas outras releituras do texto que o café estivesse envenenado e eu estava sofrendo os efeitos alucinógenos de uma morte horrenda, tendo agora um tipo de epifania antes de cair duro no chão. Estaria delirando?
Resolvi tirar a prova dos nove, para quem esta morrendo, ler qualquer coisa tanto faz. Tudo fica bom porque o pior já esta acontecendo. Li, então, uma coluna de um desses jornalecos que perambulam pela cidade - se enfiando por debaixo de nossas portas - nos atormentando a paciência com noticia sensacionalista, atochando goela a baixo. Mas logo conclui que as crônicas continuavam péssimas. Minha vida estava salva.
“... E com tantas catástrofes acontecendo – terremotos no Japão, enchentes no Rio de Janeiro e o diabo solto - esse povo só me escreve sobre política”, são horas assim que sinto falta da ditadura.

***
Por fim, dei-me por convencido de que não morreria tão cedo senão por excessiva administração de cafeína no meu organismo, e talvez demorasse. Então teria tempo, corrigi os erros gramaticais – que não eram poucos – e enviei por E-mail – Deus abençoe a internet – o arquivo para o editor do site onde escrevo semanalmente. Sentido o cheiro dos louros da vitoria sobre a ignorância que me afligia, deite-me exausto no sofá e deixei que Caetano cantasse algo para mim no CD que havia comprado num sebo logo pela manhã - Caetano Veloso por cinco reais, não poderia deixar passar. E logo depois de “belíssima”, já estava babando de tão bêbado de sono pelo canto da boca num ronco gutural.

***
O barulho de alguma coisa me acordou já no breu da sala escura e pude ver o visor do celular brilhando no escuro, dançando e vibrando feito um desses brinquedinhos de sex shop.
- Alô? – atendo esfregando a cara e levanto a procura do interruptor no escuro.
- Alô, Cris? – era o editor – estava dormindo?
“Sim”. Pensei.
-Não – respondi – aconteceu algo?
- Nada de mais, só acabo de ler o texto que me enviou e o achei ótimo, tem personalidade...
“Obrigado, obrigado, eu sei que sou ótimo”, pensei novamente quando encontrei o maldito interruptor por trás de uma estante.
- Mas... - como assim “mas”? – tem uma parte que gostaria que você me explicasse melhor, esta meio sem coerência no meu entendimento. – pigarreou e continuou – O que você quis disser como: “macacos venusianos abduziram a débil e tosca massa encefálica dos cidadãos de Barra de São Francisco usando um canudo de Milk shake?”.
Passei dez longos minutos explicando, ele fingindo entender.
- Ah sim, claro – concluiu – faça-me um favor, reescreva essa parte, não queremos um bando de leitores enfurecidos somente porque um de nossos colunistas resolveu chamá-los de “macacos burros” utilizando de palavras eruditas, não é mesmo?
Passeio outros dez curtos minutos o ofendendo com todos os tipos de palavras de baixo calão e dizendo que aquilo era uma afronta aos direitos de um escritor e jornalista, não passava de um ato de censura imoral, além de ser uma tremenda babaquice.
Ficamos outros dez segundos calados deixando um chiado chato preencher a linha telefônica precária de um pais subdesenvolvido com mania de grandeza.
Cris – disse o editor finalmente, com a voz mais pacata o possível. Lidava com esse tipo de situação todos os dias com outros diversos colunistas e sempre tinha a mesma atitude quando o autor mostrava-se insatisfeito e relutante com a mudança de alguma coisa em seus escritos. – To cagando e andando para o que você acha, reescreve e pronto, ok? – desligou em seguida.

***
Reescrevi e enviei. Ele ligou e parabenizou-me mais ainda, desta vez, dizendo que ficara mais “sutil”. O chamei de enrustido e desliguei. Nem pude esperar para escrever um novo artigo que com certeza não seria publicado, mas me deixaria muito contente. “Mil linhas de desaforos sobre um editor veado e seu secretario amante”, com a ajuda da internet a esposa do editor estaria lendo antes do café da manhã.
Preparei um bom cappuccino e coloquei-me ao oficio.

***

Moral: Quando fizer algo bom, alguns iram achar péssimo e outro bem pior ainda. Mas a primeira opinião é a que deve ficar.

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