Cintia Consul, amiga.
Meus olhos percorreram até onde podiam a extensão do manto negro do céu. Naquela noite de verão as estrelas par
eciam mais radiantes e quentes como nunca.E mesmo com toda a luminosidade emanada das lâmpadas terrestres as estrelas não recuavam e não se oprimiam. Eram deuses e sabiam disso. De fato, era colossal a quantidade astros presentes naquele momento.
E com os olhos fixos em um ponto longamente infinito, tentei enxergar nas brechas da minha imaginação outro planeta, outro mundo onde porventura houvesse outro ser observando o infinito da noite eterna tentando enxergar-me, insignificante, nesse mundo do outro lado da sua também fértil imaginação. Sorrindo, achei graça da minha infantil aventura.
Lembrei-me do dia em que havia decretado que um dia seria um astronauta, viajaria pelo espaço e que seria dono de um planeta. E como toda criança que é motivada pelo desejo e não pela razão, cheguei a ponto de montar um “foguete”.
Uma obra da sucata moderna, feito em latas de óleo, uma bacia velha e enferrujada e alguns fios que, supostamente, seria a parte elétrica da espaçonave. Porem não pude decolar por um único motivo: Minha mãe se negou a deixar que eu usasse o botijão de gás como combustível propulsor. Dessa lembrança sinto um forte desejo de esvair-me em gargalhadas. A expressão de desaprovação de minha mãe quando me viu carregando a botija para fora da cozinha agora me parecia algo cômico.
Depois dessa excursão dentro de minhas lembranças, voltei os olhos para as minhas mãos e senti o leve incomodo do óbvio. “esta ficando velho não é mesmo meu amigo?” pensei enquanto redesenhava com o olhar as curvas das mãos, as dobras dos dedos e não reconhecia mais as pequenas e desajeitadas que um dia tentaram fugir para o espaço.
E quanto mais poderei eu ver essas mãos e esse mesmo universo? Nunca havia pensado nisso, nas conseqüências do tempo sobre nos. Então fui assaltado novamente pelas recordações do menino e sua bacia intergaláctica e cheguei a mais nítida conclusão.
Hoje, mais do que nunca, poderia eu disser que o sonho de um garoto se perdeu pelas frestas do tempo. Mesmo sem combustível para a nave interplanetária, conseguia encontrar nos desejos a força para caminhar em superfícies hostis no remoto espaço.
E nessa meditação sobre a fronteira que nos cerca, descobri em mim outro universo, onde acabo de descobrir que sempre fui um astronauta, o astronauta da minha própria alma.
E quantas viajem já fim dentro do meu universo particular. Entre amores e desilusões. Conhecendo outros universos que convergiam com o meu. Indo cada vez mais fundo em um universo longínquo, porem tão próximo que era possível às vezes tocá-lo durante os meus sonhos.
E agora que regressos ao mundo exterior sabendo mais do que nunca: “não faço parte desse universo, mas ele esta dentro de mim”.
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